ABC do Inconsciente – Como a Psicanálise surgiu?
Freud, o pai da psicanálise, iniciou sua trajetória na medicina e psicologia influenciado por uma técnica popular na Europa de sua época: a hipnose. Em colaboração com o médico Josef Breuer, Freud tratou pacientes histéricas, cujos sintomas não tinham explicação fisiológica clara, mas que pareciam se resolver temporariamente por meio da hipnose. A técnica envolvia o rebaixamento da consciência do paciente, a revelação de conflitos e afetos reprimidos e o uso de sugestões verbais. Essa experiência levou Freud a observar que o acesso às lembranças reprimidas provocava uma catarse emocional, o que proporcionava um alívio temporário dos sintomas.
No entanto, Freud abandonou o uso da hipnose em sua prática terapêutica por vários motivos. Ele percebeu que, embora eficaz em alguns casos, o sucesso da hipnose era instável e frequentemente temporário, além de depender da suscetibilidade individual dos pacientes – nem todos podiam ser hipnotizados. Mais importante, Freud notou que mesmo quando a hipnose resultava em uma melhora, essa era frequentemente superficial. Os sintomas tendiam a reaparecer, pois a raiz do problema não havia sido devidamente elaborada, mas apenas exposta momentaneamente.
Com o tempo Freud foi percebendo, com a ajuda de uma ilustre paciente, que, em vez de suprimir ou introduzir sugestões ao inconsciente por meio da hipnose, seria mais eficaz permitir que os pacientes falassem livremente, sem censura, permitindo que seus pensamentos fluíssem naturalmente. Essa nova abordagem parecia levar os pacientes a descobrirem, por si mesmos, um caminho, uma ligação entre seus sintomas e os pensamentos e lembranças a estes relacionados!
Foi a partir dessa observação que Freud desenvolveu a técnica da associação livre, um método em que o paciente é encorajado a dizer tudo o que lhe vem à mente, sem filtros ou autocensura. Esse processo permitia ao terapeuta, atento em sua escuta, identificar padrões, lapsos e repetições que indicavam desejos reprimidos, conflitos internos e traumas. A associação livre substituiu a hipnose por ter um impacto mais profundo na relação terapêutica, possibilitando uma exploração dos sintomas tanto em sua dimensão linguística quanto relacional – aspectos fundamentais, uma vez que o ser humano é constituído pela linguagem e pelas relações afetivas.
Essas experiências foram cruciais para Freud desenvolver suas teorias sobre a mente e criar a psicanálise. Ele entendeu que os processos inconscientes são dinâmicos e marcados por conflitos e tensões, e que as lembranças reprimidas não são simplesmente esquecidas, mas sim mantidas fora da consciência devido ao seu conteúdo doloroso ou inaceitável. Freud reconheceu que o ser humano é inerentemente dividido, com conflitos internos que influenciam seu comportamento e suas emoções. Essas observações serviram de base para a teoria da estrutura do aparelho psíquico.
Em resumo, a transição de Freud da hipnose para a associação livre foi um marco crucial no desenvolvimento da psicanálise. Enquanto a hipnose limitava a compreensão e o tratamento de questões profundas, a associação livre permitia uma investigação e elaboração mais eficaz dos sintomas, levando a uma redução transformadora do sofrimento em algo menos hostil para o sujeito. Assim, o método catártico foi um ponto de partida significativo, mas a associação livre consolidou a psicanálise como uma prática terapêutica capaz de acessar e trabalhar o inconsciente de forma mais profunda, eficaz e com forte participação do paciente no processo.
Referências:
Freud, S. Psicologia das massas e análise do Eu; psicanálise e teoria da libido. Companhia das Letras.
Patrícia Andrade
Psicanalista e psicóloga, aprimorada em Saúde Mental pelo Instituto A Casa e membro da rede Inconsciente Real